Formação da Comunidade Oásis, "Aprendendo a Viver", com a Gislaine:
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Como viver a oferta e o sacrifício
«Criticômetro» ligado a mil
Um sintoma de crise pode ser percebido pela atividade anormal do «criticômetro». Esse mecanismo, que costuma estar ativo em níveis aceitáveis, passa a ser alimentado pelas caldeiras conjuntas do egoísmo, auto-piedade e orgulho, chegando a um ponto insuportável para a própria pessoa, com consequências desastrosas que geralmente se desejaria esquecer - e que os outros fizessem o mesmo.
Tudo começa com uma sugestão íntima a respeito de sua própria importância ou de seu próprio querer. É importante notar que essa sugestão necessariamente precisa ser o ponto essencial de todas as medidas que serão tomadas, a partir daí, pelo «criticômetro». Sua alta precisão em medições e comparações será ajustada justamente por esse critério.

Não é difícil colocar o «criticômetro» nesse ponto de ajuste, uma vez que nossa capacidade de auto-indulgência é aparentemente inesgotável quando nossas próprias medidas nos indicam que estamos com a razão. Não somente nós estamos com a razão, é claro: também consideraremos certos e justos aqueles que apoiarem nossos argumentos fundados nesse infalível instrumento.
Eu poderia continuar esta descrição de muitas maneiras, mas como acabei de ter meu «criticômetro» reajustado na base do susto, paro por aqui. Meu maior desejo neste momento é que reconheçam esta mesma situação em suas vidas, e usem o quanto antes o bendito antídoto que é a humildade: ela literalmente acalmará os elementos revoltos em seu coração.
É impossível para nós, numa tal circunstância, ser realmente humildes, mas uma gota de lucidez poderá nos valer e então pediremos socorro à Mãe de Todas as Graças que, aflita com nossa cegueira, nos socorrerá de imediato, derramando em nós Sua própria humildade.
Por favor, marquem bem estas coisas, e clamem por Nossa Senhora tão logo aconteçam. Verifiquem quando ocorre:
- uma elevação no nível de críticas às outras pessoas;
- insatisfação baseada em desejos próprios que não são atendidos;
- grande capacidade em argumentar, desculpando os próprios erros;
- maior capacidade ainda em descobrir novos motivos de acusação contra outras pessoas.
O que você espera de Deus?
Essa é uma causa de nossas crises. Muito de nosso sentimento de estar perdido, sem direção, sem saber o que fazer, está radicado nisso: o que você espera de Deus?
Interessante é ver que algumas pessoas ficam mudas, como que pensando: "...mas, afinal de contas, o que eu quero de Deus, mesmo? nunca pensei nisso!"
Ficamos como boiada disparada atrás de... atrás do quê, mesmo?
Tanta pressa, tanta coisa a fazer... para quê, mesmo?
Estou correndo atrás do quê?
Qual o objetivo disso?
Qual o sentido da minha vida?
É espantoso, mas raramente temos uma resposta imediata a essas perguntas, simplesmente porque não pensamos nisso!
Fica um vazio, é claro: instintivamente buscamos um sentido nas situações, mas neste envolvimento cego nos afazeres, na satisfação de necessidades - até as mais urgentes e legítimas -, perdemos alguma coisa. Perdemos o objetivo, o sentido.
Acontecendo isso, perdemos o centro da questão, o Norte que indica o caminho a seguir. E aí já nem sabemos o que queremos de Deus: queremos uma noite bem dormida, uma comida gostosa, a cura de uma doença, a solução de um problema... O que esperamos dEle?
E a questão se complica, porque se não sabemos o que esperamos de Deus, é porque não esperamos nada dEle: não contamos com Ele! No nosso envolvimento cego nas coisas, nos problemas a resolver, nas questões urgentes, Ele não importa! Não temos tempo de vê-lO, ouvi-lO... e se Lhe falamos, só Lhe oferecemos uma lista de petições vazias, porque são extremamente sem importância, por mais urgentes e necessárias que nos pareçam. Não perguntamos mais a Ele o que devemos esperar dEle!
Pior ainda, nessa situação Deus acaba Se tornando apenas um detalhe. No menos grave dos casos, talvez Se torne para nós o tão citado gênio da lâmpada, que tem por obrigação nos atender os pedidos, sempre, para que um dia seja enfim libertado da servidão aos homens!
Nesse momento, a graça de Deus nos lançará numa crise, numa bendita crise que nos pare nessa corrida desabalada para o nada, e nos abra os olhos para que paremos de esperar soluções e coisas de Deus... e nos demos conta de que o melhor a esperar dEle é Ele mesmo.
Quaresma, tempo da
Acho que poucas vezes vivi uma Quaresma como esta: sem conseguir fazer realmente algum propósito definido, e aquilo que foi mais nitidamente proposto, não foi cumprido! Mesmo nos dias em que pensei "A partir de hoje vou fazer isso", quando dei por mim já estava caindo de sono e dormia com o terço enrolado na mão.
Pouca oração, pouco estudo, penitência nível 0,45. Que coisa! Mas serviu para conhecer melhor minha miséria: nada consigo por mim mesma, nem o mínimo esperado. Só mesmo pela graça de Deus consigo ser e fazer.
Por sinal, a Quaresma ainda não terminou. Deus pode fazer muito em pouco tempo, por isso acredito que ainda conseguirei - com a graça divina - aproveitar bem este tempo de penitência e conversão.
Entre crises
Quando a gente está numa crise ou acabou de sair de uma, parece que há muito o que falar sobre crises. Fiquei pensando se não estarei numa fase “entre crises”, porque está me faltando inspiração pra escrever sobre o assunto!
De vez em quando isso acontece: Deus nos permite viver um estágio de calmaria, enquanto assimilamos os acontecimentos passados e meditamos sobre o presente, talvez um pouquinho mais atentos aos “sinais” com os quais Ele nos indica por onde ir e por onde não ir.
Não deixa de ser um tema interessante: pode acontecer que, durante uma calmaria dessas, a pessoa pense que nunca mais vai entrar em pânico ou em desespero como nas crises passadas, quando vier a próxima. Será mesmo?... É comum acontecer um pico de agitação ao primeiro choque da crise. “Meu Deus, e agora?” ou “De novo nããããããoooooooo!!!”
Mas é na calmaria que se tem a chance de analisar, sem paixão, nossos comportamentos, reações, objetivos, raciocínios.
Uma coisa que tenho notado muito facilmente é o quanto nós confundimos o objetivo com o meio usado para alcançá-lo. Isso é fácil demais de perceber. Ganho dinheiro para ter comida, casa, roupa, conforto, certo? Em palavras melhores: o dinheiro serve para se fazer coisas boas. Portanto, o dinheiro é um meio. O objetivo é fazer coisas boas. Se o objetivo passa a ser o dinheiro, a matemática toda fica errada; o fluxo se interrompe; a energia é desviada; a alma esfria.
Esse exemplo é o mais fácil, porque há outros mais complicados, que podem até envolver a escolha entre duas coisas boas em si mesmas: o resultado de uma delas pode não ser bom, ou pelo menos não adequado ao momento presente. Como estar na sintonia certa para se discernir corretamente?
Somente tendo armazenado as lições e reflexões da vida, e mantendo vida de oração, é que conseguimos estar o mais possível próximos dessa sintonia fina: sem muitos ruídos, sem a “estática” da vontade própria, sem a interferência das transmissões concorrentes das paixões desordenadas.
Em manutenção...
Instalando layout novo! Logo volto aos posts.
Retrospectiva 2010
Quando começa este período de retrospectivas do ano, a impressão é de que muita coisa ruim aconteceu. Espiritualmente, então, nem se fale: a gente só se lembra das mancadas, das quedas fenomenais, das “surras” levadas e de tudo o que ainda não funciona direito na nossa vida.
Mas é tudo uma questão (digo mais uma vez) de fazermos as perguntas certas. Não é brincar de “jogo do contente”, e sim ter a corajosa atitude de olhar de frente para o que parecem ser apenas ruínas e se propor a avaliar melhor o caminho percorrido.
Elaborei para mim algumas perguntas para essa auto-avaliação, que partilho aqui com vocês (só as perguntas, não minhas respostas! rs...). Lembro aos leitores que sou de uma Comunidade de Vida, por isso estas questões talvez pareçam meio fora do comum. Mesmo assim, vale a pena se questionar isto mesmo:
- O que aprendi sobre obediência? ...sobre humildade? ...sobre pureza de intenções? Como vivi isso?
- O que aconteceu quando minhas iniciativas seguiram o meu próprio querer?
- O que aconteceu quando enfrentei a vontade de Deus com a minha própria?
- O que eu ainda não aceito? (em mim, nos outros?)Estas perguntas são bastante incômodas, mas acredito que não vale a pena ficar insistindo em coisas que não funcionam. Por outro lado, há situações que não mudam, e assim o que precisa mudar é o nosso olhar sobre elas. É bom se perguntar por que, entra ano, sai ano, não acontecem mudanças pessoais.
Virar a folhinha de dezembro para janeiro não significa muita coisa, quando não queremos mudar nada. Mas se estamos dispostos a uma mudança, a virada da folhinha significa bem mais do que começar um ano novo.
Só notícia ruim?
Esta semana eu me questionei se alguém, entre os que seguem este blog, estaria se perguntando (novamente) o porquê do nome dele ser “Benditas crises”. Afinal de contas, até o momento parece que não se falou de nada realmente bom relacionado às crises: só descobrimos que somos orgulhosos, miseráveis, pecadores, e que nem nossas atitudes boas têm uma intenção realmente pura. Nesse ponto se começa a pensar se vale a pena tudo isso, ou se das crises só podemos esperar mesmo notícias ruins a respeito de nós mesmos.
Uma coisa importante é perceber que esse processo de crises espirituais é realmente isso: espiritual. É um processo de amadurecimento espiritual, de crescimento na plenitude do que se é. As coisas de que você gosta, aquilo que o atrai, o que aquece seu coração e o que o deixa indignado, tudo isso tem um motivo mais profundo. Alguns aspectos precisam de refinamento, mas outros fazem parte do seu ser original, isto é: são manifestações autênticas da pessoa que Deus planejou ao criar você. O objetivo dessas crises é conseguir, que o seu “eu autêntico”, querido por Deus, enfim se manifeste o máximo possível. Apesar da dor desse processo, você também experimenta grandes alegrias, atinge altos níveis de realização humana ao conseguir ser um pouco mais “você mesmo”.
Esse processo é para todos. Apenas alguns chegam a purificações mais profundas, heróicas. Não se preocupe a respeito de detalhes do seu processo: abrace-o! Ouse querer ser a pessoa sonhada por Deus quando criou você. Perceber que essa possibilidade existe e está ao seu alcance, é uma das melhores notícias que se pode ter.
Por quê?...
Parte do nosso sofrimento se deve ao orgulho. Não adianta me responder que não é o seu caso, porque é só analisar um pouco e constatar que o pecado original está aí em você também.
Perguntar o “por quê” de uma crise, não deixa de ser orgulho. É uma pretensão de sermos capazes de entender aquilo que não nos cabe saber, pelo menos naquele momento.
Tantas situações, às vezes até esdrúxulas e sem sentido algum, e que nos causam tanta dor, angústia, desespero, só farão sentido muito tempo depois. E boa parte delas só fará sentido realmente quando estivermos diante de Deus. Então pensaremos: “Ah, mas então era por isso!...” ou “Ah, mas era só isso!...”
Ficamos acostumados aos mocinhos do cinema, que resolvem tudo imediatamente, na pancada, explodindo tudo e arrebentando o vilão. Nossos instintos se sentem todos satisfeitos com essa noção de justiça (que acaba sendo uma vingança) e com esse modo de resolver as coisas num turbilhão de reações violentas. Mas quando algo nos acontece e nos sentimos feridos, incapazes de explodir alguma coisa para tentar aliviar nosso sofrimento, todo nosso ser questiona a Deus, com a pergunta errada: “Por quê?”
É esse o momento de fazermos as perguntas certas, que nos levam para cima, elevam nosso espírito: Como Deus vê essas situações? Qual o significado desses acontecimentos todos no plano espiritual? O que esses fatos nos ensinam? O que eu devo aprender com isso? O que Deus espera de mim com esta situação?
Enquanto não entendemos, peçamos a Deus que ao menos aceitemos aquilo que tão incompreensivelmente acontece. Esse é um ato de fé importante. Rezemos ao Senhor: ajuda-me a aceitar, ensina-me o que preciso aprender com tudo isto; faz com que eu aja e responda como desejas neste momento. Ajuda-me, Senhor, nesta provação!
Rezemos como os discípulos de Emaús: Fica comigo, Senhor, porque a noite da provação se aproxima e me envolve. E, na companhia dEle, já não perguntaremos mais nada. Viveremos tudo no amor.
Antes de começar, lembro ao leitor que este blog não é sobre educação de crianças, mas comentários sobre crises espirituais. O termo infantil, neste caso,está se referindo a reações não amadurecidas. Isto explicado, começamos nossa conversa de hoje!
Reações infantis denunciam crises, e alguns momentos de crise disparam reações infantis. As duas situações são importantes. Vejamos a diferença:
Reações infantis denunciam crises
Nesta situação, nós nos vemos excessivamente irritados, por exemplo, ao não conseguirmos algo que queremos - seja algo importante ou não. Bem, como estamos falando francamente sobre crises, vou corrigir: ficamos excessivamente irritados ao não conseguirmos algo que queremos e que não é importante. Simplesmente isso: queremos algo; não conseguimos ter; ficamos emburrados, feito criancinha contrariada. O ego ferido lateja e a reação egocêntrica denuncia a situação. Não olhe a palha no olho de seu irmão, não... analise um pouquinho como foi a última vez em que o atraso de alguém fez você esperar, de olho no celular a cada minuto e meio. E me diga qual o tamanho da tromba que você armou quando o ímpio vilão de seu tempo chegou atrasado! O atraso até pode ter sido justificado, e o compromisso não era nenhuma cirurgia cerebral. Mas, para você, foi um crime de lesa-majestade, sem dúvida...
- Opa! Espere aí: esse tipo de reação indica uma crise???Sim, gente! Uma reação desproporcional à situação sempre indica que algo não está bem. Lembram-se de que é nas pequenas coisas que a gente se revela? Hoje em dia não se liga mais para isso, a educação em família não chega até esses detalhes (mal se ensina como usar o banheiro direito), e as pessoas reagem mal a qualquer coisa que as incomoda. Isso é sinal de crise, de doença espiritual a ser curada. Mas como não se liga para isso - porque virou algo normal - a crise não é resolvida e se fica numa espiral crescente de maus comportamentos - e, em decorrência, de uma crescente infelicidade fictícia, porque nada demais acontece com a pessoa mas ela está sempre reclamando porque tudo a incomoda, nada dá certo como ela deseja. Por pouca coisa o indivíduo barbado fica transtornado, faz um show, berra com a mãe... uma beleza! Isso acontece também com jovens senhoras, é claro. Relembro que não estou incluindo aqui transtornos e doenças psíquicas, mas prestem atenção a esses sinais de irritação e a frequência com que são emitidos. O que acontece quando você é contrariado? Avalie a situação e considere a importância do que o contraria. É para tanto?
É francamente inadmissível continuar alimentando este tipo de comportamento, como se fosse um ser especial que não pode ser contrariado, que não pode ficar sem ter as coisas, que precisa ter tudo do seu jeito.
Poderemos cair neste comportamento, sim: mas por deslize, por fraqueza, e não por aceitarmos isto como um modo de ser! É um vício abominável contra o amor!
Renúncia e penitência são palavras-chave para controlar esta terrível doença. Atenção aos sinais.
Momentos de crise disparam reações infantis
Já esta situação está associada a traumas. Quando a pessoa se vê envolvida num fato que a faz reviver um trauma passado, ela reage na mesma idade emocional que tinha quando viveu o trauma original. Ela pode ser equilibrada em outras circunstâncias até mais complicadas, mas naquele cenário específico sua reação está cristalizada no tempo. Isso indica que o trauma não foi superado ainda; não foi resolvido. A pessoa não cresceu naquele ponto específico, relacionado ao trauma. Por isso ela revive as coisas com os sentimentos não amadurecidos, com um sofrimento desproporcional ao fato corrente. Sente-se desamparada, a tal ponto que tenta se esconder, foge! Reage de fato como uma criança. Torna-se uma criancinha num corpo de adulto.
Mas, se nesse momento a pessoa tem a graça de parar um momento e analisar que agora ela é um adulto, que a situação de hoje não é exatamente aquela do passado, embora se assemelhe muito... Se ela consegue se levantar e olhar - com os olhos de adulto - o fato atual, poderá descobrir que é capaz de passar por aquilo. E que, embora no passado tenha sofrido algo parecido, muito profundamente, ela sobreviveu; diante daquilo que se passou em sua infância, o momento presente também pode ser vencido, superado ou acolhido, compreendido, vivido. A vivência amadurecida da situação atual poderá curar o trauma do passado e resolver muitas circunstâncias decorrentes: terá mais tranquilidade para ser o que se é, ganhará mais auto-confiança, segurança para enfrentar novos desafios, e, sobretudo, renovada fé em Deus, pois enfim reconhecerá Sua presença amorosa também naquele fato de sua vida passada.

