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Divina Providência! Divina Providência!


Quem sofre deve, a cada golpe, olhar para o Céu. Tudo vem do Alto. Não compreendemos os desígnios de Deus.

Mistério dos mistérios é o da Divina Providência! Há ocasiões em que o enigma se nos apresenta espantoso, torturante. Passamos por uma das provas mais difíceis de nossa fé quando a Providência, por estradas tortuosas, leva-nos ao cumprimento dos seus eternos desígnios.

Os juízos da Providência são incompreensíveis. Deus começa reduzindo ao nada aqueles que Ele encarrega de alguma missão. A morte é o caminho pelo qual nos conduz ordinariamente à Vida. “Ninguém compreende por onde Ele passa”, diz Monsenhor Gay. Sim, meu Deus, ninguém compreende por onde passais nem o que quereis de nós nesta aflição, neste golpe, nesta morte, neste fracasso de uma obra! Tudo foi preparado no Céu. Mas de uma coisa podemos ter certeza, embora nos levem as aparências a negá-lo: foi para o bem de nossas almas! 

Nosso Senhor revelou a Santa Madalena Postel que ela seria fundadora de uma comunidade, mais tarde bem numerosa. Entretanto, durante trinta anos Deus parecia empenhado em impedir a obra, que passou pelas mais duras provas, por insucessos e fracassos repetidos. Conheceis a história edificante e dolorosa da fundação de tantas ordens e institutos que são hoje a glória da Igreja? Insondáveis desígnios de Deus, mas, estejamos certos, desígnios de misericórdia e de amor!

Dizia a Madre Maria do Santíssimo Sacramento, fundadora das irmãs Franciscanas Missionárias: “Uma das nossas grandes alegrias no Céu será ver, nos planos Divinos, como fomos conduzidos, nos longos caminhos da vida, pelos cuidados da Divina Providência, que sem que o soubéssemos, afastou de nós tantos perigos e colocou em nosso caminho tudo de que tínhamos necessidade para servir aos seus desígnios”. Ó Divina Providência! É para se chorar de amor! Só o pensar em vós comove tanto, meu Deus!


Monsenhor Ascânio Brandão
Breviário da Confiança

O que Deus espera de você?


Em um post anterior, refletimos sobre O que você espera de Deus?. Agora faremos o caminho inverso.

Ao longo de nossa história de vida, percebemos algumas pistas a respeito de nossas capacidades, do que nos agrada fazer, do que fazemos bem. E formamos uma ideia daquilo que entendemos que Deus quer de nós. Porém, curiosamente, costumamos errar nesta conclusão.

Um belo exemplo disso aconteceu com um senhor de nome Joseph Ratzinger: quando julgou entender que seu papel na Igreja havia terminado, depois de anos dedicados ao lado de João Paulo II, fez um sermão inspiradíssimo dizendo tudo o que poucos homens na face da terra teriam coragem de dizer em público, escancarando todo o cenário da Igreja e do mundo. Foi como uma despedida e um suspiro que antegozava sua aposentadoria, que lhe parecia tão próxima. E então Deus lhe fez o chamado mais inesperado de sua vida, como se lhe dissesse:
«Querido filho, sua missão não está terminando: agora é que ela realmente começa!»
Nunca antes vi alguém relatar ter dito a Deus o que eu mesma já disse: «O que estás fazendo?» Pois foi nesses termos o diálogo de D. Ratzinger com Deus em sua eleição no conclave. Quantas vezes também perguntei a Deus: «O que estás fazendo?» - comigo, com minha vida? O que esperas de mim com isto, nesta situação? Às vezes tudo parecia já tão certo e estabelecido, mas de repente tudo vira de maneira tão inesperada e até assustadora!

É que não entendemos direito o que Deus espera de nós. Ficamos meio perdidos, com a impressão de que nada está certo. Parece que temos que conquistar alguma coisa, quando no fundo o exercício dessa fase era nos dedicarmos com empenho, darmos o melhor de nós, usarmos de nossa capacidade de maneira sábia e criativa. Em outras palavras, a prova era colocarmos para funcionar nossos talentos. E se nos saímos razoavelmente bem, então nos chega uma proposta para darmos um passo além: sermos mais ousados na fé, mais audaciosos para enfrentar os desafios, mais desprendidos para permitirmos que a Providência Divina nos dê uma experiência nova da Paternidade de Deus.

Esses desafios todos não são o objetivo, não são «a missão». São etapas, somente etapas que nos fazem caminhar um passo por vez, um passo além.

Até que enfim chega o momento de entender o que Deus queria de nós. «Ah!.... Então era isso!»


Mas para chegar até esse momento, é preciso percorrer os passos anteriores, com paciência e dedicação. A missão se define depois, provavelmente quando você achar que já a cumpriu!

Momentos de aprendizagem


As situações que nos pegam de surpresa geralmente nos deixam em choque. Dificilmente temos a melhor das reações nesse momento. Se não se pode reagir coerentemente, a sugestão para essa emergência é: não reagir de acordo com o primeiro impulso. Esse impulso costuma ser violento e de intensidade muitas vezes superior ao que o fato exige.

Respire fundo, deixe passar, e depois de extravasar a raiva ou frustração em particular (se for preciso), passe à fase de avaliação: o que aconteceu? o que eu esperava? o que foi dito? qual teria sido a melhor coisa a fazer?

Não pense nessas coisas planejando sua vingança, nem para se punir por ter reagido mal ou por não ter reagido. Essa análise é para colocar os fatos em perspectiva, avaliando sua real importância no quadro geral e não de acordo com a reação que lhe causaram interiormente.

Considere o ponto de vista dos outros, não fique supondo que pensaram ou que imaginaram ou que supuseram... Aprenda a ser mais objetivo, mais equilibrado, menos vítima, menos "o centro de tudo".

Se você não aprende com as situações, terá desperdiçado toda sua vida sem conseguir ser melhor. Disponha-se a isso!

Na medida certa


Conversando com pessoas de vários níveis de espiritualidade, é fácil ver que uma situação que causaria profundas crises em algumas, para outras nada mais é que uma rotina diária; os questionamentos de outras jamais passaram pela cabeça daquelas, pois se isso acontecesse poderiam até perder a fé.

Na catequese de Jesus sobre seu seguimento, Ele deixa muito clara essa situação: cada um deve tomar a própria cruz para segui-Lo. A cruz do outro, embora me pareça mais leve, mais agradável, mais enfeitada, na verdade não me convém - porque... é do outro, não é minha! Nossa cobiça de uma cruz mais leve ou mais adequada, tem por base uma comparação superficial e nem um pouco espiritual. Queremos logo um bem que julgamos já nos pertencer.

Quanta dúvida e suspeita com relação às intenções de Deus para conosco! E como Ele Se vale de decepções profundamente humanas para nos fazer subir um pequenino passo na vida espiritual! Vemos isso como amor de Deus? De jeito nenhum! Queremos ser felizes agora!

Quando a situação é mais complexa, é ainda mais difícil crer nesse amor divino que permite que o mal nos atinja, ou que parece nos exigir tudo, até aquilo que pensávamos ser legítimo possuir. É um exercício de fé, confiança e humildade reconhecer que Deus sempre sabe o que é melhor pra nós, e que Ele sabe o momento certo e a medida certa para todas as coisas.

Está descontente com o que Deus está lhe dando neste momento? Reclame com Ele, diga que O ama mas que não está entendendo nada... diga que quer a vontade dEle, mas que precisa da ajuda dEle para isso... fale ao Coração dEle, bem de perto, de mãos dadas com a Mãe Imaculada: “Não entendo, mas me ajude, quero ser salvo por Ti!...” Ele olha bem dentro de suas profundezas, nas raízes de seu ser, perscruta suas verdades mais íntimas... e sem dúvida alguma o ajudará, cobrindo de Misericórdia sua miséria. Mas busque com sinceridade o que Ele quer para você, mesmo sob o peso de seu descontentamento e talvez até de uma revolta: apresente-se diante dEle como você está, como o cego do caminho que Lhe suplicava piedade. E diga a Ele, bem explicadinho, o que você quer que Ele faça em você, na sua vida. Na medida em que você puder compreender e suportar, Ele lhe revelará alguns mistérios e vários porquês.

Mas comungue dEle, de Seu desejo por sua salvação. Acima de querer compreendê-Lo, queira ser íntimo dEle.

“Deus te vê... não é indiferente à tua dor...”

Como viver a oferta e o sacrifício


Formação da Comunidade Oásis, "Aprendendo a Viver", com a Gislaine:

«Criticômetro» ligado a mil


Um sintoma de crise pode ser percebido pela atividade anormal do «criticômetro». Esse mecanismo, que costuma estar ativo em níveis aceitáveis, passa a ser alimentado pelas caldeiras conjuntas do egoísmo, auto-piedade e orgulho, chegando a um ponto insuportável para a própria pessoa, com consequências desastrosas que geralmente se desejaria esquecer - e que os outros fizessem o mesmo.

Tudo começa com uma sugestão íntima a respeito de sua própria importância ou de seu próprio querer. É importante notar que essa sugestão necessariamente precisa ser o ponto essencial de todas as medidas que serão tomadas, a partir daí, pelo «criticômetro». Sua alta precisão em medições e comparações será ajustada justamente por esse critério.


Não é difícil colocar o «criticômetro» nesse ponto de ajuste, uma vez que nossa capacidade de auto-indulgência é aparentemente inesgotável quando nossas próprias medidas nos indicam que estamos com a razão. Não somente nós estamos com a razão, é claro: também consideraremos certos e justos aqueles que apoiarem nossos argumentos fundados nesse infalível instrumento.

Eu poderia continuar esta descrição de muitas maneiras, mas como acabei de ter meu «criticômetro» reajustado na base do susto, paro por aqui. Meu maior desejo neste momento é que reconheçam esta mesma situação em suas vidas, e usem o quanto antes o bendito antídoto que é a humildade: ela literalmente acalmará os elementos revoltos em seu coração.

É impossível para nós, numa tal circunstância, ser realmente humildes, mas uma gota de lucidez poderá nos valer e então pediremos socorro à Mãe de Todas as Graças que, aflita com nossa cegueira, nos socorrerá de imediato, derramando em nós Sua própria humildade.

Por favor, marquem bem estas coisas, e clamem por Nossa Senhora tão logo aconteçam. Verifiquem quando ocorre:

  • uma elevação no nível de críticas às outras pessoas;
  • insatisfação baseada em desejos próprios que não são atendidos;
  • grande capacidade em argumentar, desculpando os próprios erros;
  • maior capacidade ainda em descobrir novos motivos de acusação contra outras pessoas.
E pense bem: não é por aí que você vai resolver uma situação difícil, uma angústia, um sofrimento. Aceite o processo de crise com docilidade, porque algo de bom sairá disso. Mesmo se seu «criticômetro» ficar desregulado pela raiva (=orgulho), pela decepção (=orgulho ferido) etc., coloque tudo diante da misericórdia de Deus e não diante de sua própria justiça.

O que você espera de Deus?



Essa é uma causa de nossas crises. Muito de nosso sentimento de estar perdido, sem direção, sem saber o que fazer, está radicado nisso: o que você espera de Deus?

Interessante é ver que algumas pessoas ficam mudas, como que pensando: "...mas, afinal de contas, o que eu quero de Deus, mesmo? nunca pensei nisso!"

Ficamos como boiada disparada atrás de... atrás do quê, mesmo?

Tanta pressa, tanta coisa a fazer... para quê, mesmo?

Estou correndo atrás do quê?
Qual o objetivo disso?
Qual o sentido da minha vida?

É espantoso, mas raramente temos uma resposta imediata a essas perguntas, simplesmente porque não pensamos nisso!

Fica um vazio, é claro: instintivamente buscamos um sentido nas situações, mas neste envolvimento cego nos afazeres, na satisfação de necessidades - até as mais urgentes e legítimas -, perdemos alguma coisa. Perdemos o objetivo, o sentido.

Acontecendo isso, perdemos o centro da questão, o Norte que indica o caminho a seguir. E aí já nem sabemos o que queremos de Deus: queremos uma noite bem dormida, uma comida gostosa, a cura de uma doença, a solução de um problema... O que esperamos dEle?

E a questão se complica, porque se não sabemos o que esperamos de Deus, é porque não esperamos nada dEle: não contamos com Ele! No nosso envolvimento cego nas coisas, nos problemas a resolver, nas questões urgentes, Ele não importa! Não temos tempo de vê-lO, ouvi-lO... e se Lhe falamos, só Lhe oferecemos uma lista de petições vazias, porque são extremamente sem importância, por mais urgentes e necessárias que nos pareçam. Não perguntamos mais a Ele o que devemos esperar dEle!

Pior ainda, nessa situação Deus acaba Se tornando apenas um detalhe. No menos grave dos casos, talvez Se torne para nós o tão citado gênio da lâmpada, que tem por obrigação nos atender os pedidos, sempre, para que um dia seja enfim libertado da servidão aos homens!

Nesse momento, a graça de Deus nos lançará numa crise, numa bendita crise que nos pare nessa corrida desabalada para o nada, e nos abra os olhos para que paremos de esperar soluções e coisas de Deus... e nos demos conta de que o melhor a esperar dEle é Ele mesmo.

Quaresma, tempo da


Acho que poucas vezes vivi uma Quaresma como esta: sem conseguir fazer realmente algum propósito definido, e aquilo que foi mais nitidamente proposto, não foi cumprido! Mesmo nos dias em que pensei "A partir de hoje vou fazer isso", quando dei por mim já estava caindo de sono e dormia com o terço enrolado na mão.

Pouca oração, pouco estudo, penitência nível 0,45. Que coisa! Mas serviu para conhecer melhor minha miséria: nada consigo por mim mesma, nem o mínimo esperado. Só mesmo pela graça de Deus consigo ser e fazer.

Por sinal, a Quaresma ainda não terminou. Deus pode fazer muito em pouco tempo, por isso acredito que ainda conseguirei - com a graça divina - aproveitar bem este tempo de penitência e conversão.

Entre crises


Quando a gente está numa crise ou acabou de sair de uma, parece que há muito o que falar sobre crises. Fiquei pensando se não estarei numa fase “entre crises”, porque está me faltando inspiração pra escrever sobre o assunto!

De vez em quando isso acontece: Deus nos permite viver um estágio de calmaria, enquanto assimilamos os acontecimentos passados e meditamos sobre o presente, talvez um pouquinho mais atentos aos “sinais” com os quais Ele nos indica por onde ir e por onde não ir.

Não deixa de ser um tema interessante: pode acontecer que, durante uma calmaria dessas, a pessoa pense que nunca mais vai entrar em pânico ou em desespero como nas crises passadas, quando vier a próxima. Será mesmo?... É comum acontecer um pico de agitação ao primeiro choque da crise. “Meu Deus, e agora?” ou “De novo nããããããoooooooo!!!”


Mas é na calmaria que se tem a chance de analisar, sem paixão, nossos comportamentos, reações, objetivos, raciocínios.

Uma coisa que tenho notado muito facilmente é o quanto nós confundimos o objetivo com o meio usado para alcançá-lo. Isso é fácil demais de perceber. Ganho dinheiro para ter comida, casa, roupa, conforto, certo? Em palavras melhores: o dinheiro serve para se fazer coisas boas. Portanto, o dinheiro é um meio. O objetivo é fazer coisas boas. Se o objetivo passa a ser o dinheiro, a matemática toda fica errada; o fluxo se interrompe; a energia é desviada; a alma esfria.

Esse exemplo é o mais fácil, porque há outros mais complicados, que podem até envolver a escolha entre duas coisas boas em si mesmas:  o resultado de uma delas pode não ser bom, ou pelo menos não adequado ao momento presente. Como estar na sintonia certa para se discernir corretamente?

Somente tendo armazenado as lições e reflexões da vida, e mantendo vida de oração, é que conseguimos estar o mais possível próximos dessa sintonia fina: sem muitos ruídos, sem a “estática” da vontade própria, sem a interferência das transmissões concorrentes das paixões desordenadas.

Em manutenção...


Instalando layout novo! Logo volto aos posts.

Retrospectiva 2010


Quando começa este período de retrospectivas do ano, a impressão é de que muita coisa ruim aconteceu. Espiritualmente, então, nem se fale: a gente só se lembra das mancadas, das quedas fenomenais, das “surras” levadas e de tudo o que ainda não funciona direito na nossa vida.

Mas é tudo uma questão (digo mais uma vez) de fazermos as perguntas certas. Não é brincar de “jogo do contente”, e sim ter a corajosa atitude de olhar de frente para o que parecem ser apenas ruínas e se propor a avaliar melhor o caminho percorrido.

Elaborei para mim algumas perguntas para essa auto-avaliação, que partilho aqui com vocês (só as perguntas, não minhas respostas! rs...). Lembro aos leitores que sou de uma Comunidade de Vida, por isso estas questões talvez pareçam meio fora do comum. Mesmo assim, vale a pena se questionar isto mesmo:

- O que aprendi sobre obediência? ...sobre humildade? ...sobre pureza de intenções? Como vivi isso?
- O que aconteceu quando minhas iniciativas seguiram o meu próprio querer?
-  O que aconteceu quando enfrentei a vontade de Deus com a minha própria?
- O que eu ainda não aceito? (em mim, nos outros?) 
Estas perguntas são bastante incômodas, mas acredito que não vale a pena ficar insistindo em coisas que não funcionam. Por outro lado, há situações que não mudam, e assim o que precisa mudar é o nosso olhar sobre elas. É bom se perguntar por que, entra ano, sai ano, não acontecem mudanças pessoais.

Virar a folhinha de dezembro para janeiro não significa muita coisa, quando não queremos mudar nada. Mas se estamos dispostos a uma mudança, a virada da folhinha significa bem mais do que começar um ano novo.

Só notícia ruim?


Esta semana eu me questionei se alguém, entre os que seguem este blog, estaria se perguntando (novamente) o porquê do nome dele ser “Benditas crises”. Afinal de contas, até o momento parece que não se falou de nada realmente bom relacionado às crises: só descobrimos que somos orgulhosos, miseráveis, pecadores, e que nem nossas atitudes boas têm uma intenção realmente pura. Nesse ponto se começa a pensar se vale a pena tudo isso, ou se das crises só podemos esperar mesmo notícias ruins a respeito de nós mesmos.

Uma coisa importante é perceber que esse processo de crises espirituais é realmente isso: espiritual. É um processo de amadurecimento espiritual, de crescimento na plenitude do que se é. As coisas de que você gosta, aquilo que o atrai, o que aquece seu coração e o que o deixa indignado, tudo isso tem um motivo mais profundo. Alguns aspectos precisam de refinamento, mas outros fazem parte do seu ser original, isto é: são manifestações autênticas da pessoa que Deus planejou ao criar você. O objetivo dessas crises é conseguir, que o seu “eu autêntico”, querido por Deus, enfim se manifeste o máximo possível. Apesar da dor desse processo, você também experimenta grandes alegrias, atinge altos níveis de realização humana ao conseguir ser um pouco mais “você mesmo”.

Esse processo é para todos. Apenas alguns chegam a purificações mais profundas, heróicas. Não se preocupe a respeito de detalhes do seu processo: abrace-o! Ouse querer ser a pessoa sonhada por Deus quando criou você. Perceber que essa possibilidade existe e está ao seu alcance, é uma das melhores notícias que se pode ter.

Por quê?...


Parte do nosso sofrimento se deve ao orgulho. Não adianta me responder que não é o seu caso, porque é só analisar um pouco e constatar que o pecado original está aí em você também.

Perguntar o “por quê” de uma crise, não deixa de ser orgulho. É uma pretensão de sermos capazes de entender aquilo que não nos cabe saber, pelo menos naquele momento.

Tantas situações, às vezes até esdrúxulas e sem sentido algum, e que nos causam tanta dor, angústia, desespero, só farão sentido muito tempo depois. E boa parte delas só fará sentido realmente quando estivermos diante de Deus. Então pensaremos: “Ah, mas então era por isso!...” ou “Ah, mas era só isso!...”


Ficamos acostumados aos mocinhos do cinema, que resolvem tudo imediatamente, na pancada, explodindo tudo e arrebentando o vilão. Nossos instintos se sentem todos satisfeitos com essa noção de justiça (que acaba sendo uma vingança) e com esse modo de resolver as coisas num turbilhão de reações violentas. Mas quando algo nos acontece e nos sentimos feridos, incapazes de explodir alguma coisa para tentar aliviar nosso sofrimento, todo nosso ser questiona a Deus, com a pergunta errada: “Por quê?”

É esse o momento de fazermos as perguntas certas, que nos levam para cima, elevam nosso espírito: Como Deus vê essas situações? Qual o significado desses acontecimentos todos no plano espiritual? O que esses fatos nos ensinam? O que eu devo aprender com isso? O que Deus espera de mim com esta situação?

Enquanto não entendemos, peçamos a Deus que ao menos aceitemos aquilo que tão incompreensivelmente acontece. Esse é um ato de fé importante. Rezemos ao Senhor: ajuda-me a aceitar, ensina-me o que preciso aprender com tudo isto; faz com que eu aja e responda como desejas neste momento. Ajuda-me, Senhor, nesta provação!

Rezemos como os discípulos de Emaús: Fica comigo, Senhor, porque a noite da provação se aproxima e me envolve. E, na companhia dEle, já não perguntaremos mais nada. Viveremos tudo no amor.

Reações infantis


Antes de começar, lembro ao leitor que este blog não é sobre educação de crianças, mas comentários sobre crises espirituais. O termo infantil, neste caso,está se referindo a reações não amadurecidas. Isto explicado, começamos nossa conversa de hoje!


Reações infantis denunciam crises, e alguns momentos de crise disparam reações infantis. As duas situações são importantes. Vejamos a diferença:


Reações infantis denunciam crises

Nesta situação, nós nos vemos excessivamente irritados, por exemplo, ao não conseguirmos algo que queremos - seja algo importante ou não. Bem, como estamos falando francamente sobre crises, vou corrigir: ficamos excessivamente irritados ao não conseguirmos algo que queremos e que não é importante. Simplesmente isso: queremos algo; não conseguimos ter; ficamos emburrados, feito criancinha contrariada. O ego ferido lateja e a reação egocêntrica denuncia a situação. Não olhe a palha no olho de seu irmão, não... analise um pouquinho como foi a última vez em que o atraso de alguém fez você esperar, de olho no celular a cada minuto e meio. E me diga qual o tamanho da tromba que você armou quando o ímpio vilão de seu tempo chegou atrasado! O atraso até pode ter sido justificado, e o compromisso não era nenhuma cirurgia cerebral. Mas, para você, foi um crime de lesa-majestade, sem dúvida...

- Opa! Espere aí: esse tipo de reação indica uma crise???
Sim, gente! Uma reação desproporcional à situação sempre indica que algo não está bem. Lembram-se de que é nas pequenas coisas que a gente se revela? Hoje em dia não se liga mais para isso, a educação em família não chega até esses detalhes (mal se ensina como usar o banheiro direito), e as pessoas reagem mal a qualquer coisa que as incomoda. Isso é sinal de crise, de doença espiritual a ser curada. Mas como não se liga para isso - porque virou algo normal - a crise não é resolvida e se fica numa espiral crescente de maus comportamentos - e, em decorrência, de uma crescente infelicidade fictícia, porque nada demais acontece com a pessoa mas ela está sempre reclamando porque tudo a incomoda, nada dá certo como ela deseja. Por pouca coisa o indivíduo barbado fica  transtornado, faz um show, berra com a mãe... uma beleza! Isso acontece também com jovens senhoras, é claro. Relembro que não estou incluindo aqui transtornos e doenças psíquicas, mas prestem atenção a esses sinais de irritação e a frequência com que são emitidos. O que acontece quando você é contrariado? Avalie a situação e considere a importância do que o contraria. É para tanto?

É francamente inadmissível continuar alimentando este tipo de comportamento, como se fosse um ser especial que não pode ser contrariado, que não pode ficar sem ter as coisas, que precisa ter tudo do seu jeito.

Poderemos cair neste comportamento, sim: mas por deslize, por fraqueza, e não por aceitarmos isto como um modo de ser! É um vício abominável contra o amor! 

Renúncia e penitência são palavras-chave para controlar esta terrível doença. Atenção aos sinais.


Momentos de crise disparam reações infantis

Já esta situação está associada a traumas. Quando a pessoa se vê envolvida num fato que a faz reviver um trauma passado, ela reage na mesma idade emocional que tinha quando viveu o trauma original. Ela pode ser equilibrada em outras circunstâncias até mais complicadas, mas naquele cenário específico sua reação está cristalizada no tempo. Isso indica que o trauma não foi superado ainda; não foi resolvido. A pessoa não cresceu naquele ponto específico, relacionado ao trauma. Por isso ela revive as coisas com os sentimentos não amadurecidos, com um sofrimento desproporcional ao fato corrente. Sente-se desamparada, a tal ponto que tenta se esconder, foge! Reage de fato como uma criança. Torna-se uma criancinha num corpo de adulto.

Mas, se nesse momento a pessoa tem a graça de parar um momento e analisar que agora ela é um adulto, que a situação de hoje não é exatamente aquela do passado, embora se assemelhe muito... Se ela consegue se levantar e olhar - com os olhos de adulto - o fato atual, poderá descobrir que é capaz de passar por aquilo. E que, embora no passado tenha sofrido algo parecido, muito profundamente, ela sobreviveu; diante daquilo que se passou em sua infância, o momento presente também pode ser vencido, superado ou acolhido, compreendido, vivido. A vivência amadurecida da situação atual poderá curar o trauma do passado e resolver muitas circunstâncias decorrentes: terá mais tranquilidade para ser o que se é, ganhará mais auto-confiança, segurança para enfrentar novos desafios, e, sobretudo, renovada fé em Deus, pois enfim reconhecerá Sua presença amorosa também naquele fato de sua vida passada.

A crise do outro


Ao começar este blog, comentei que seu objetivo é ajudar as pessoas a passarem por essas benditas crises espirituais, tão essenciais porque nos purificam e provam no fogo de diversas provações. Elas nos tornam mais humanos, mais verdadeiros, mais... mais o que realmente somos.

Mas hoje o foco do post é “a crise do outro” e não a nossa própria.

O que fazer para ajudar uma pessoa em crise? - é uma boa pergunta. A resposta não está toda aqui, é claro... este texto é uma tentativa de esboçar as linhas gerais desta situação.

Em primeiro lugar: uma pessoa em crise pode ser insuportável 
Maldade minha? Acho que não: pense em si mesmo quando está numa crise! Pois é; não é fácil ter por perto uma pessoa em crise... porque é nas dificuldades que a gente se revela. Quando está tudo bem, temos em geral um semblante agradável, levamos as coisas numa boa... Mas se o calo está doendo, nada está bom: reclamamos porque a chuva molha e o fogo queima,... enfim, a pessoa não é razoável, reage a tudo de maneira exagerada. Isso acontece em parte porque ela se sente ferida e quer atenção, quer alívio para sua dor. Como essa dor só será curada por Aquele que a provocou, só podemos ajudar relevando os excessos de comportamento da pessoa e rezar para que ela se submeta ao processo da crise e, suportando todos os incômodos, consiga obter os frutos que Deus lhe preparou nessa etapa.

Em segundo lugar: você não pode sofrer a crise por ela
Não é possível liberar alguém desse processo de crise. O máximo que se pode fazer é sofrer junto e pedir a intercessão de Nossa Senhora, apresentar tudo diante do Senhor no Sacrário. E ter paciência para que a pessoa tenha o seu tempo com Deus para curar o que precisa ser curado. Aceite sua própria incapacidade de ajudá-la nesse momento: é Deus agindo. Só interfira naquilo que o Espírito Santo lhe indicar, o que costuma ser muito pouco e bem pequeno: uma pergunta que orienta a reflexão, um conselho que mais parece um bote salva-vidas em momentos mais críticos. Mas não espere agradecimentos, especialmente quando você acaba lhe revelando uma verdade interior: é mais fácil que a pessoa fique furiosa e lhe diga que você não entendeu nada, que você não é o dono da razão. Ela própria poderá estar espantada com o que vem descobrindo em si mesma e rapidamente procura negar a verdade que lhe foi revelada, ainda mais quando ela é confirmada por outra pessoa. É um processo delicado. Por isso, na maior parte das vezes, dê somente o silêncio atencioso que acolhe as angústias, dores e revoltas. E deixe Deus fazer Seu papel de Pai que corrige, cura, liberta e salva!

Aprendendo a fazer as perguntas certas


Um dos objetivos das crises é nos fazer encarar a verdade a respeito de nós mesmos. É perda de tempo querermos nos poupar como se fôssemos a coisa mais linda, sincera e pura da face da terra, porque esse tipo de ilusão não serve pra nada de bom - só massageia nosso ego. A verdade sobre qualquer pessoa é a verdade do pecado original: queremos ser como Deus. De fato, muitas vezes agimos e reagimos como deuses de nosso próprio universo.

Como já comentei em outros posts, uma crise não servirá para nosso crescimento espiritual se não aprendemos algo com ela. Se saímos de uma crise do mesmo tamanho com que entramos, foi porque certamente nos recusamos a abrir o coração e a mente para uma nova visão que Deus desejava nos conceder. Uma crise salutar sempre nos colocará no nosso devido lugar: de criatura dependente do Criador.

Não é difícil aprender a aproveitar esses momentos. Por exemplo, quando estamos em uma crise cheia de questionamentos, o melhor modo de aproveitá-la é fazer as perguntas certas. Especificamente, quando nossos questionamentos são do tipo:

  • “Por que não pode ser como eu quero?”, ou 
  • “Por que não posso ter isto e aquilo ao mesmo tempo?”, ou mais declaradamente: 
  • “Por que a escolha pela vontade de Deus exclui a minha?”,
temos uma oportunidade incrível para virar a mesa da crise com perguntas que realmente interessam:
  • “Por que tem que ser como eu quero?”
  • “Por que eu tenho que ter isto e aquilo ao mesmo tempo?”
  • “Por que acho que a minha vontade é melhor que a vontade de Deus para mim?” 
Portanto, se você está disposto a encarar a verdade sobre si mesmo, faça as perguntas certas. E aproveite as crises para crescer para Deus!

A esperança do estepe


Há umas crises em que a gente precisa desenvolver uma coisa a que hoje chamei “esperança do estepe”. Na maioria dos modelos de carros a gente nem vê o estepe; só se lembra dele na hora de viajar, praticamente. Mas ele tem que estar lá.

Fiquei imaginando que a esperança de um pneu estepe é ser usado um dia. Mas então pensei: na verdade ele não deve ficar ansioso para que um outro pneu fure, porque se devido a isso acontece um acidente, dificilmente ele vá ser realmente usado. Então ele fica naquela crise existencial: “tô aqui, ninguém se lembra de mim, ninguém me enxerga (e se me enxerga, apenas faço parte do modelo do carro)... que coisa mais inútil!”

Não é bem assim, porque motorista que roda sem estepe ou com estepe em mau estado se arrisca a levar ponto na carteira. Então não tem muito jeito: por menos que se olhe pra ele, ele tem que estar ali, tem que ser mantido em ordem e pronto para ser eventualmente usado.

Enquanto eu desenvolvia esta teoria, acabei me lembrando de São Paulo: sentia-se ansioso para ir logo pregar, depois foi se acalmando, amadurecendo... e, mesmo sentindo-se pronto, não deu um passo sequer antes que a Igreja o enviasse em missão.

O paralelo funcionou bem na minha cabeça; não sei se serviu para a sua: o estepe tem que fazer sua parte, simplesmente se preparando. Quase nunca é usado, e se é num modelo de carro que o deixa exposto, toma sol, chuva, e ocasionalmente leva umas espremidas nas garagens estreitas. Mas tem que estar ali. Ainda que se sinta inútil, precisa estar no seu lugar, a postos, preparado para entrar em ação e cumprir seu papel. Na hora certa.

A respeito de Liberdade e Paraíso


A coincidência da nomenclatura dos bairros e sua posição na cidade já fez com que esta foto aparecesse numa porção de blogs com este assunto. Em especial porque a placa sugere - assim como certo pensamento dominante - que escolher o caminho da liberdade é ir na contramão do Paraíso.

E aí poucos se interrogam: afinal, o que é liberdade? o que é o Paraíso?

Muitos têm uma noção bem terrena de Paraíso, como se fosse uma condição de mundo em que tudo funciona direito, onde as leis são seguidas e a justiça reina.

Para outros, Paraíso significa um tédio completo, onde nada acontece e todos os anjinhos e santos ficam flutuando de um lado para outro, alheios a qualquer coisa que acontece no mundo, e todos com aquele ar de bem-aventurança extra-terrena dos quadros antigos (de não sei que século).

Liberdade é outra coisa que não se conhece direito. A ideia geral é que liberdade é “independência” (mas hein?), é fazer o que der na cabeça, simplesmente seguindo uma vontade interior regida por... sabe-se lá pelo quê. Mas o ideal de quem segue essa definição de liberdade é a anarquia, a desconstrução, o caos. Obviamente, caindo na ilusão de desconsiderar que a consequência dessa falsa liberdade é a auto-destruição.

Ao olhar para essa foto, alguns conseguiram atingir a ousadia de perguntar:
- Mas não é possível ter os dois?
Claro que sim. Vivendo a verdadeira Liberdade, temos também um gosto antecipado do verdadeiro Paraíso. Se somos verdadeiramente livres, vivemos uma condição que será plenamente satisfeita no Paraíso.

A liberdade verdadeira é viver os mandamentos de Deus. Nosso problema é que temos um conceito iluminista de liberdade: no fundo, aceitamos a ideia de que a religião “oprime”! O que de fato nos oprime e tira nossa liberdade é o pecado. É o pecado que está na contramão do Paraíso.

Inquietações e incômodos


Nossas crises nos permitem somar experiências e marcar o caminho dos - digamos - diagnósticos de crise. Essa somatória é de uma riqueza imensa, é como se nossos olhos fossem se abrindo bem devagarinho para as realidades da vida. Refletimos, comparamos, damos um passo, experimentamos.

Um erro comum é não darmos atenção às inquietações que nos atormentam. Coincidentemente, hoje me deparei com dois conteúdos (um artigo e um áudio) que falavam sobre inquietação. Essas duas fontes passavam basicamente esta mensagem: a inquietação é uma graça; e as crises são um despertar.

Suponhamos que você está dormindo num barquinho próximo à margem de um riacho. As águas fazem aquele barulhinho que acalma e embala o sono. Aos poucos as águas começam a fazer mais barulho e começam a perturbar seu sono, até que de repente você acorda assustado e a tempo, pois o barquinho havia se soltado da margem e já estava perto de uma corredeira pedregosa! Aí se tem, graficamente, a importância da inquietação e da crise.

Se não damos atenção à inquietação, a crise nos engole. 

A inquietação tem um papel importante porque nos aponta que algo não está certo. O problema é que facilmente identificamos a causa da inquietação em algum agente externo e não em nós mesmos! Se estamos em desequilíbrio, em desarmonia com Deus, precisando de confissão, essas irritações nos perturbam mais que uma vuvuzela soprada no silêncio de uma biblioteca: ficamos agitados, incomodados no último, e queremos que a coisa cale a boca. Já vamos xingando, sentindo o eco da corneta ressoar no cérebro. Mas nos esquecemos de analisar o motivo da irritação: foram os decibéis no tímpano, foi o susto, ou o quê? Sendo mais clara: reagimos à irritação e ao incômodo espiritual de maneira instintiva e não de maneira espiritual. Deixamos passar a oportunidade de aprender algo com o que nos incomoda. E se o incômodo não nos acorda para o fato de que há algo errado, a crise vai tornar isso bem nítido.

Por tudo isso, o que nos inquieta e incomoda não pode ser rejeitado como algo que não tem nada a ver conosco: precisa ser avaliado, analisado. Por que há coisas que nos incomodam e não incomodam outras pessoas? Por que, sem motivo aparente, o jeito de uma pessoa falar sobre um assunto nos irrita profundamente? Deve haver algum motivo, e raramente a causa disso está no outro: está mesmo em nós. E qual o significado disso? Não é tanto pelo que o outro diz, nem pelo modo de falar, mas é a maneira pela qual recebo o que é dito. Quais conclusões tiro daquilo que ouço e do que fazem? São conclusões corretas ou sou eu que fico interpretando tudo de acordo com o que eu acho que é? Estar errado me incomoda? Ver que os outros conseguem fazer o que está fora de minha capacidade me irrita?

É preciso analisar, identificar as causas, pôr em questão, e tirar disso algumas lições que nos levem um passinho adiante.

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