Retrospectiva 2010


Quando começa este período de retrospectivas do ano, a impressão é de que muita coisa ruim aconteceu. Espiritualmente, então, nem se fale: a gente só se lembra das mancadas, das quedas fenomenais, das “surras” levadas e de tudo o que ainda não funciona direito na nossa vida.

Mas é tudo uma questão (digo mais uma vez) de fazermos as perguntas certas. Não é brincar de “jogo do contente”, e sim ter a corajosa atitude de olhar de frente para o que parecem ser apenas ruínas e se propor a avaliar melhor o caminho percorrido.

Elaborei para mim algumas perguntas para essa auto-avaliação, que partilho aqui com vocês (só as perguntas, não minhas respostas! rs...). Lembro aos leitores que sou de uma Comunidade de Vida, por isso estas questões talvez pareçam meio fora do comum. Mesmo assim, vale a pena se questionar isto mesmo:

- O que aprendi sobre obediência? ...sobre humildade? ...sobre pureza de intenções? Como vivi isso?
- O que aconteceu quando minhas iniciativas seguiram o meu próprio querer?
-  O que aconteceu quando enfrentei a vontade de Deus com a minha própria?
- O que eu ainda não aceito? (em mim, nos outros?) 
Estas perguntas são bastante incômodas, mas acredito que não vale a pena ficar insistindo em coisas que não funcionam. Por outro lado, há situações que não mudam, e assim o que precisa mudar é o nosso olhar sobre elas. É bom se perguntar por que, entra ano, sai ano, não acontecem mudanças pessoais.

Virar a folhinha de dezembro para janeiro não significa muita coisa, quando não queremos mudar nada. Mas se estamos dispostos a uma mudança, a virada da folhinha significa bem mais do que começar um ano novo.

Só notícia ruim?


Esta semana eu me questionei se alguém, entre os que seguem este blog, estaria se perguntando (novamente) o porquê do nome dele ser “Benditas crises”. Afinal de contas, até o momento parece que não se falou de nada realmente bom relacionado às crises: só descobrimos que somos orgulhosos, miseráveis, pecadores, e que nem nossas atitudes boas têm uma intenção realmente pura. Nesse ponto se começa a pensar se vale a pena tudo isso, ou se das crises só podemos esperar mesmo notícias ruins a respeito de nós mesmos.

Uma coisa importante é perceber que esse processo de crises espirituais é realmente isso: espiritual. É um processo de amadurecimento espiritual, de crescimento na plenitude do que se é. As coisas de que você gosta, aquilo que o atrai, o que aquece seu coração e o que o deixa indignado, tudo isso tem um motivo mais profundo. Alguns aspectos precisam de refinamento, mas outros fazem parte do seu ser original, isto é: são manifestações autênticas da pessoa que Deus planejou ao criar você. O objetivo dessas crises é conseguir, que o seu “eu autêntico”, querido por Deus, enfim se manifeste o máximo possível. Apesar da dor desse processo, você também experimenta grandes alegrias, atinge altos níveis de realização humana ao conseguir ser um pouco mais “você mesmo”.

Esse processo é para todos. Apenas alguns chegam a purificações mais profundas, heróicas. Não se preocupe a respeito de detalhes do seu processo: abrace-o! Ouse querer ser a pessoa sonhada por Deus quando criou você. Perceber que essa possibilidade existe e está ao seu alcance, é uma das melhores notícias que se pode ter.

Por quê?...


Parte do nosso sofrimento se deve ao orgulho. Não adianta me responder que não é o seu caso, porque é só analisar um pouco e constatar que o pecado original está aí em você também.

Perguntar o “por quê” de uma crise, não deixa de ser orgulho. É uma pretensão de sermos capazes de entender aquilo que não nos cabe saber, pelo menos naquele momento.

Tantas situações, às vezes até esdrúxulas e sem sentido algum, e que nos causam tanta dor, angústia, desespero, só farão sentido muito tempo depois. E boa parte delas só fará sentido realmente quando estivermos diante de Deus. Então pensaremos: “Ah, mas então era por isso!...” ou “Ah, mas era só isso!...”


Ficamos acostumados aos mocinhos do cinema, que resolvem tudo imediatamente, na pancada, explodindo tudo e arrebentando o vilão. Nossos instintos se sentem todos satisfeitos com essa noção de justiça (que acaba sendo uma vingança) e com esse modo de resolver as coisas num turbilhão de reações violentas. Mas quando algo nos acontece e nos sentimos feridos, incapazes de explodir alguma coisa para tentar aliviar nosso sofrimento, todo nosso ser questiona a Deus, com a pergunta errada: “Por quê?”

É esse o momento de fazermos as perguntas certas, que nos levam para cima, elevam nosso espírito: Como Deus vê essas situações? Qual o significado desses acontecimentos todos no plano espiritual? O que esses fatos nos ensinam? O que eu devo aprender com isso? O que Deus espera de mim com esta situação?

Enquanto não entendemos, peçamos a Deus que ao menos aceitemos aquilo que tão incompreensivelmente acontece. Esse é um ato de fé importante. Rezemos ao Senhor: ajuda-me a aceitar, ensina-me o que preciso aprender com tudo isto; faz com que eu aja e responda como desejas neste momento. Ajuda-me, Senhor, nesta provação!

Rezemos como os discípulos de Emaús: Fica comigo, Senhor, porque a noite da provação se aproxima e me envolve. E, na companhia dEle, já não perguntaremos mais nada. Viveremos tudo no amor.

Reações infantis


Antes de começar, lembro ao leitor que este blog não é sobre educação de crianças, mas comentários sobre crises espirituais. O termo infantil, neste caso,está se referindo a reações não amadurecidas. Isto explicado, começamos nossa conversa de hoje!


Reações infantis denunciam crises, e alguns momentos de crise disparam reações infantis. As duas situações são importantes. Vejamos a diferença:


Reações infantis denunciam crises

Nesta situação, nós nos vemos excessivamente irritados, por exemplo, ao não conseguirmos algo que queremos - seja algo importante ou não. Bem, como estamos falando francamente sobre crises, vou corrigir: ficamos excessivamente irritados ao não conseguirmos algo que queremos e que não é importante. Simplesmente isso: queremos algo; não conseguimos ter; ficamos emburrados, feito criancinha contrariada. O ego ferido lateja e a reação egocêntrica denuncia a situação. Não olhe a palha no olho de seu irmão, não... analise um pouquinho como foi a última vez em que o atraso de alguém fez você esperar, de olho no celular a cada minuto e meio. E me diga qual o tamanho da tromba que você armou quando o ímpio vilão de seu tempo chegou atrasado! O atraso até pode ter sido justificado, e o compromisso não era nenhuma cirurgia cerebral. Mas, para você, foi um crime de lesa-majestade, sem dúvida...

- Opa! Espere aí: esse tipo de reação indica uma crise???
Sim, gente! Uma reação desproporcional à situação sempre indica que algo não está bem. Lembram-se de que é nas pequenas coisas que a gente se revela? Hoje em dia não se liga mais para isso, a educação em família não chega até esses detalhes (mal se ensina como usar o banheiro direito), e as pessoas reagem mal a qualquer coisa que as incomoda. Isso é sinal de crise, de doença espiritual a ser curada. Mas como não se liga para isso - porque virou algo normal - a crise não é resolvida e se fica numa espiral crescente de maus comportamentos - e, em decorrência, de uma crescente infelicidade fictícia, porque nada demais acontece com a pessoa mas ela está sempre reclamando porque tudo a incomoda, nada dá certo como ela deseja. Por pouca coisa o indivíduo barbado fica  transtornado, faz um show, berra com a mãe... uma beleza! Isso acontece também com jovens senhoras, é claro. Relembro que não estou incluindo aqui transtornos e doenças psíquicas, mas prestem atenção a esses sinais de irritação e a frequência com que são emitidos. O que acontece quando você é contrariado? Avalie a situação e considere a importância do que o contraria. É para tanto?

É francamente inadmissível continuar alimentando este tipo de comportamento, como se fosse um ser especial que não pode ser contrariado, que não pode ficar sem ter as coisas, que precisa ter tudo do seu jeito.

Poderemos cair neste comportamento, sim: mas por deslize, por fraqueza, e não por aceitarmos isto como um modo de ser! É um vício abominável contra o amor! 

Renúncia e penitência são palavras-chave para controlar esta terrível doença. Atenção aos sinais.


Momentos de crise disparam reações infantis

Já esta situação está associada a traumas. Quando a pessoa se vê envolvida num fato que a faz reviver um trauma passado, ela reage na mesma idade emocional que tinha quando viveu o trauma original. Ela pode ser equilibrada em outras circunstâncias até mais complicadas, mas naquele cenário específico sua reação está cristalizada no tempo. Isso indica que o trauma não foi superado ainda; não foi resolvido. A pessoa não cresceu naquele ponto específico, relacionado ao trauma. Por isso ela revive as coisas com os sentimentos não amadurecidos, com um sofrimento desproporcional ao fato corrente. Sente-se desamparada, a tal ponto que tenta se esconder, foge! Reage de fato como uma criança. Torna-se uma criancinha num corpo de adulto.

Mas, se nesse momento a pessoa tem a graça de parar um momento e analisar que agora ela é um adulto, que a situação de hoje não é exatamente aquela do passado, embora se assemelhe muito... Se ela consegue se levantar e olhar - com os olhos de adulto - o fato atual, poderá descobrir que é capaz de passar por aquilo. E que, embora no passado tenha sofrido algo parecido, muito profundamente, ela sobreviveu; diante daquilo que se passou em sua infância, o momento presente também pode ser vencido, superado ou acolhido, compreendido, vivido. A vivência amadurecida da situação atual poderá curar o trauma do passado e resolver muitas circunstâncias decorrentes: terá mais tranquilidade para ser o que se é, ganhará mais auto-confiança, segurança para enfrentar novos desafios, e, sobretudo, renovada fé em Deus, pois enfim reconhecerá Sua presença amorosa também naquele fato de sua vida passada.

A crise do outro


Ao começar este blog, comentei que seu objetivo é ajudar as pessoas a passarem por essas benditas crises espirituais, tão essenciais porque nos purificam e provam no fogo de diversas provações. Elas nos tornam mais humanos, mais verdadeiros, mais... mais o que realmente somos.

Mas hoje o foco do post é “a crise do outro” e não a nossa própria.

O que fazer para ajudar uma pessoa em crise? - é uma boa pergunta. A resposta não está toda aqui, é claro... este texto é uma tentativa de esboçar as linhas gerais desta situação.

Em primeiro lugar: uma pessoa em crise pode ser insuportável 
Maldade minha? Acho que não: pense em si mesmo quando está numa crise! Pois é; não é fácil ter por perto uma pessoa em crise... porque é nas dificuldades que a gente se revela. Quando está tudo bem, temos em geral um semblante agradável, levamos as coisas numa boa... Mas se o calo está doendo, nada está bom: reclamamos porque a chuva molha e o fogo queima,... enfim, a pessoa não é razoável, reage a tudo de maneira exagerada. Isso acontece em parte porque ela se sente ferida e quer atenção, quer alívio para sua dor. Como essa dor só será curada por Aquele que a provocou, só podemos ajudar relevando os excessos de comportamento da pessoa e rezar para que ela se submeta ao processo da crise e, suportando todos os incômodos, consiga obter os frutos que Deus lhe preparou nessa etapa.

Em segundo lugar: você não pode sofrer a crise por ela
Não é possível liberar alguém desse processo de crise. O máximo que se pode fazer é sofrer junto e pedir a intercessão de Nossa Senhora, apresentar tudo diante do Senhor no Sacrário. E ter paciência para que a pessoa tenha o seu tempo com Deus para curar o que precisa ser curado. Aceite sua própria incapacidade de ajudá-la nesse momento: é Deus agindo. Só interfira naquilo que o Espírito Santo lhe indicar, o que costuma ser muito pouco e bem pequeno: uma pergunta que orienta a reflexão, um conselho que mais parece um bote salva-vidas em momentos mais críticos. Mas não espere agradecimentos, especialmente quando você acaba lhe revelando uma verdade interior: é mais fácil que a pessoa fique furiosa e lhe diga que você não entendeu nada, que você não é o dono da razão. Ela própria poderá estar espantada com o que vem descobrindo em si mesma e rapidamente procura negar a verdade que lhe foi revelada, ainda mais quando ela é confirmada por outra pessoa. É um processo delicado. Por isso, na maior parte das vezes, dê somente o silêncio atencioso que acolhe as angústias, dores e revoltas. E deixe Deus fazer Seu papel de Pai que corrige, cura, liberta e salva!

Aprendendo a fazer as perguntas certas


Um dos objetivos das crises é nos fazer encarar a verdade a respeito de nós mesmos. É perda de tempo querermos nos poupar como se fôssemos a coisa mais linda, sincera e pura da face da terra, porque esse tipo de ilusão não serve pra nada de bom - só massageia nosso ego. A verdade sobre qualquer pessoa é a verdade do pecado original: queremos ser como Deus. De fato, muitas vezes agimos e reagimos como deuses de nosso próprio universo.

Como já comentei em outros posts, uma crise não servirá para nosso crescimento espiritual se não aprendemos algo com ela. Se saímos de uma crise do mesmo tamanho com que entramos, foi porque certamente nos recusamos a abrir o coração e a mente para uma nova visão que Deus desejava nos conceder. Uma crise salutar sempre nos colocará no nosso devido lugar: de criatura dependente do Criador.

Não é difícil aprender a aproveitar esses momentos. Por exemplo, quando estamos em uma crise cheia de questionamentos, o melhor modo de aproveitá-la é fazer as perguntas certas. Especificamente, quando nossos questionamentos são do tipo:

  • “Por que não pode ser como eu quero?”, ou 
  • “Por que não posso ter isto e aquilo ao mesmo tempo?”, ou mais declaradamente: 
  • “Por que a escolha pela vontade de Deus exclui a minha?”,
temos uma oportunidade incrível para virar a mesa da crise com perguntas que realmente interessam:
  • “Por que tem que ser como eu quero?”
  • “Por que eu tenho que ter isto e aquilo ao mesmo tempo?”
  • “Por que acho que a minha vontade é melhor que a vontade de Deus para mim?” 
Portanto, se você está disposto a encarar a verdade sobre si mesmo, faça as perguntas certas. E aproveite as crises para crescer para Deus!

A esperança do estepe


Há umas crises em que a gente precisa desenvolver uma coisa a que hoje chamei “esperança do estepe”. Na maioria dos modelos de carros a gente nem vê o estepe; só se lembra dele na hora de viajar, praticamente. Mas ele tem que estar lá.

Fiquei imaginando que a esperança de um pneu estepe é ser usado um dia. Mas então pensei: na verdade ele não deve ficar ansioso para que um outro pneu fure, porque se devido a isso acontece um acidente, dificilmente ele vá ser realmente usado. Então ele fica naquela crise existencial: “tô aqui, ninguém se lembra de mim, ninguém me enxerga (e se me enxerga, apenas faço parte do modelo do carro)... que coisa mais inútil!”

Não é bem assim, porque motorista que roda sem estepe ou com estepe em mau estado se arrisca a levar ponto na carteira. Então não tem muito jeito: por menos que se olhe pra ele, ele tem que estar ali, tem que ser mantido em ordem e pronto para ser eventualmente usado.

Enquanto eu desenvolvia esta teoria, acabei me lembrando de São Paulo: sentia-se ansioso para ir logo pregar, depois foi se acalmando, amadurecendo... e, mesmo sentindo-se pronto, não deu um passo sequer antes que a Igreja o enviasse em missão.

O paralelo funcionou bem na minha cabeça; não sei se serviu para a sua: o estepe tem que fazer sua parte, simplesmente se preparando. Quase nunca é usado, e se é num modelo de carro que o deixa exposto, toma sol, chuva, e ocasionalmente leva umas espremidas nas garagens estreitas. Mas tem que estar ali. Ainda que se sinta inútil, precisa estar no seu lugar, a postos, preparado para entrar em ação e cumprir seu papel. Na hora certa.

A respeito de Liberdade e Paraíso


A coincidência da nomenclatura dos bairros e sua posição na cidade já fez com que esta foto aparecesse numa porção de blogs com este assunto. Em especial porque a placa sugere - assim como certo pensamento dominante - que escolher o caminho da liberdade é ir na contramão do Paraíso.

E aí poucos se interrogam: afinal, o que é liberdade? o que é o Paraíso?

Muitos têm uma noção bem terrena de Paraíso, como se fosse uma condição de mundo em que tudo funciona direito, onde as leis são seguidas e a justiça reina.

Para outros, Paraíso significa um tédio completo, onde nada acontece e todos os anjinhos e santos ficam flutuando de um lado para outro, alheios a qualquer coisa que acontece no mundo, e todos com aquele ar de bem-aventurança extra-terrena dos quadros antigos (de não sei que século).

Liberdade é outra coisa que não se conhece direito. A ideia geral é que liberdade é “independência” (mas hein?), é fazer o que der na cabeça, simplesmente seguindo uma vontade interior regida por... sabe-se lá pelo quê. Mas o ideal de quem segue essa definição de liberdade é a anarquia, a desconstrução, o caos. Obviamente, caindo na ilusão de desconsiderar que a consequência dessa falsa liberdade é a auto-destruição.

Ao olhar para essa foto, alguns conseguiram atingir a ousadia de perguntar:
- Mas não é possível ter os dois?
Claro que sim. Vivendo a verdadeira Liberdade, temos também um gosto antecipado do verdadeiro Paraíso. Se somos verdadeiramente livres, vivemos uma condição que será plenamente satisfeita no Paraíso.

A liberdade verdadeira é viver os mandamentos de Deus. Nosso problema é que temos um conceito iluminista de liberdade: no fundo, aceitamos a ideia de que a religião “oprime”! O que de fato nos oprime e tira nossa liberdade é o pecado. É o pecado que está na contramão do Paraíso.

Inquietações e incômodos


Nossas crises nos permitem somar experiências e marcar o caminho dos - digamos - diagnósticos de crise. Essa somatória é de uma riqueza imensa, é como se nossos olhos fossem se abrindo bem devagarinho para as realidades da vida. Refletimos, comparamos, damos um passo, experimentamos.

Um erro comum é não darmos atenção às inquietações que nos atormentam. Coincidentemente, hoje me deparei com dois conteúdos (um artigo e um áudio) que falavam sobre inquietação. Essas duas fontes passavam basicamente esta mensagem: a inquietação é uma graça; e as crises são um despertar.

Suponhamos que você está dormindo num barquinho próximo à margem de um riacho. As águas fazem aquele barulhinho que acalma e embala o sono. Aos poucos as águas começam a fazer mais barulho e começam a perturbar seu sono, até que de repente você acorda assustado e a tempo, pois o barquinho havia se soltado da margem e já estava perto de uma corredeira pedregosa! Aí se tem, graficamente, a importância da inquietação e da crise.

Se não damos atenção à inquietação, a crise nos engole. 

A inquietação tem um papel importante porque nos aponta que algo não está certo. O problema é que facilmente identificamos a causa da inquietação em algum agente externo e não em nós mesmos! Se estamos em desequilíbrio, em desarmonia com Deus, precisando de confissão, essas irritações nos perturbam mais que uma vuvuzela soprada no silêncio de uma biblioteca: ficamos agitados, incomodados no último, e queremos que a coisa cale a boca. Já vamos xingando, sentindo o eco da corneta ressoar no cérebro. Mas nos esquecemos de analisar o motivo da irritação: foram os decibéis no tímpano, foi o susto, ou o quê? Sendo mais clara: reagimos à irritação e ao incômodo espiritual de maneira instintiva e não de maneira espiritual. Deixamos passar a oportunidade de aprender algo com o que nos incomoda. E se o incômodo não nos acorda para o fato de que há algo errado, a crise vai tornar isso bem nítido.

Por tudo isso, o que nos inquieta e incomoda não pode ser rejeitado como algo que não tem nada a ver conosco: precisa ser avaliado, analisado. Por que há coisas que nos incomodam e não incomodam outras pessoas? Por que, sem motivo aparente, o jeito de uma pessoa falar sobre um assunto nos irrita profundamente? Deve haver algum motivo, e raramente a causa disso está no outro: está mesmo em nós. E qual o significado disso? Não é tanto pelo que o outro diz, nem pelo modo de falar, mas é a maneira pela qual recebo o que é dito. Quais conclusões tiro daquilo que ouço e do que fazem? São conclusões corretas ou sou eu que fico interpretando tudo de acordo com o que eu acho que é? Estar errado me incomoda? Ver que os outros conseguem fazer o que está fora de minha capacidade me irrita?

É preciso analisar, identificar as causas, pôr em questão, e tirar disso algumas lições que nos levem um passinho adiante.

Em busca da felicidade


Quando se suspira por felicidade, em geral se suspira por algo que nunca está no mesmo lugar em que nós estamos, seja temporal ou fisicamente. Como se felicidade estivesse sempre “lá longe”; “lá” onde estive ou “lá” onde não estou ainda. Então tentam nos animar com frases que não ajudam em nada e ainda nos fazem sentir culpados por não nos sentirmos felizes sempre.

O mito da felicidade que vivemos hoje tem muito a ver com a cultura atual, e basicamente nos ataca em dois pontos principais:
  1. aponta nosso objetivo de felicidade como um estado em que nada de errado nos acontece.
  2. afirma que o caminho para atingir esse objetivo é pelas coisas sensíveis.

Eu usei a expressão «nos ataca» porque esses dois pontos são de fato um ataque, um atentado à nossa razão e à nossa natureza humana. Pois, seguindo fielmente essas duas indicações, o homem (no sentido de Humanidade) só consegue colher insatisfação.

O homem não tem apenas uma dimensão. Portanto, um estado em que tudo está aparentemente bem - saúde, conforto, realizações pessoais - não significará necessariamente “felicidade”. Não é uma equação matemática: saúde + dinheiro + amor = felicidade. Você pensava que era assim?...

Quando se batalha por um objetivo, colocando nele a esperança de ser feliz, tão logo esse objetivo é atingido, sentimos que a satisfação por tê-lo alcançado não atinge o sentido pleno de felicidade. Isso porque imprevistos, dificuldades, doenças, etc., não são opostos à felicidade real. Então, vamos ter consciência disto:
É ilusão pensar que felicidade é um estado em que está tudo bem, tudo ordenado, tudo sob nosso controle.

Uma vez que o objetivo (item 1) é falso, o meio para se chegar a ele (item 2) é duplamente falso! As coisas sensíveis - sensações, posses, prazeres - não trazem felicidade. Vamos anotar nas paredes, se preciso for:
Prazer é físico. Felicidade é espiritual.
Portanto, não se alcança a felicidade por meio do prazer!

(detalhes sobre isso na Terapia de Doenças Espirituais )
O prazer é passageiro. Quem pratica esportes, sabe que a sensação prazerosa do exercício físico feito segunda-feira de manhã não dura até segunda-feira à noite: é algo físico! E com todos os outros meios de conseguir prazer é a mesma coisa: a sensação de prazer não dura! Mais que isso: conforme o tipo de prazer escolhido para se buscar a felicidade, além da insatisfação pelo prazer que não dura, nos vêm ainda as consequências físicas e morais: doenças, dependência química, decadência (moral e financeira), depressão, e até suicídio - e nada disso resolve “o problema” de se encontrar a felicidade.

Queridos! Estas crises que temos com relação à busca da felicidade são para nos livrarmos dessas ilusões malignas. Felicidade sem Deus, não existe. Para quem tem fé, felicidade é estar em harmonia com Deus; para quem não tem fé, também! Não há felicidade sem se cumprir os Mandamentos de Deus - e eu me pergunto se alguém neste mundo tem conseguido cumpri-los realmente! Mas o empenho em viver segundo o que Deus nos ordena para nosso bem, já é caminho para a verdadeira felicidade.

Essa busca de felicidade, intrínseca no homem, é a busca de Deus. Veja bem então “o quê” você está buscando: Deus! Agora veja bem se você está usando o caminho certo para encontrá-lO.

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